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quinta-feira, novembro 22, 2007

Manifestos de Palanque #2 - Comparativas directas

Seguindo na senda dos Manifestos de Palanque, iniciados faz pouco tempo, venho agora falar das frases comparativas directas aquando da apreciação da acção de alguém em determinada situação. Principalmente se essa acção, apesar de se desejar frutífera, é inócua ou pouco mais do que insignificante.

Vamos iniciar então pelo mais óbvio que o português tem. Qualquer expressão com um nível intelectual assinalável provém, obrigatoriamente, do maior poço de cultura de cultura do pais: o futebol. Quando tenho esta riqueza ao meu lado, porquê andar a pensar em coisas novas? Basta adaptá-las! Assim, vamos ter por exemplo a expressão: “Estou muito grato ao clube A, onde cresci muito como homem e como jogador”.

Agora vamos adaptá-la a situações do dia a dia. Quando alguém podia ter feito uma coisa que não fez, pode-se dizer “como homem, falhou” ao qual se acrescenta sempre uma 2ª expressão sem sentido e muitas vezes uma 3ª expressão para rematar. Note-se que uma 3ª expressão para rematar abrilhanta sempre a coisa. Esta é a única regra que não tem excepção.

Passemos agora a uma caso prático. “Esqueci-me de trazer dinheiro para pagar as coca-colas”. Como utilizar uma expressão socialmente aceitável nesta ocasião, isto é, como usar as comparativas directas aqui? Simples:

a) 1ª frase: não trouxe o dinheiro. “Como homem, falhou”

b) 2ª frase: uma expressão sem lógica para aqui – caso mais comum, usar-se o “centro de mesa” como objecto que não faz nada, apenas está ali para ornamentar – “como centro de mesa, cumpriu”

c) 3ª frase, opcional - mas intelectualmente não só necessária como revigorante, aqui já fica ao critério de quem diz: “mas como alicate, já vi melhor”. Não é preciso ter sentido, o importante é a lógica gramatical estar presente.

Em resumo e juntando as três expressões teremos que o sujeito, ao não trazer o dinheiro para pagar as coca-colas, como homem, falhou, como centro de mesa, cumpriu, mas como alicate já vi melhor.

Para finalizar, é óbvio que existem outras expressões que podem ser aqui incorporadas, principalmente na frase para rematar como "fez doutrina", "deixou a desejar" ou ainda "sente-se incompleto". Como estas tantas outras.

Veredicto final:
Potencial de utilização - 8/10 [Alto. Na realidade tudo é comparável, é só surgir a situação propícia]
Primeiro impacto - 2/10 [Fraquíssimo. Só realmente quem for iluminado perceberá à primeira uma comparativa directa. Carece de explicação adjacente, quase de certeza.]
Durabilidade - 7/10 [Eventualmente poder-se-á esquecer da aplicação das comparativas directas numa ou outra situação. Nada de grave, mas a evitar]

Agora vamos tentar todos que se fale português correcto por esse país fora, pode ser?

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