Palavras, palavrinhas e palavrões de uma pequena minoria dentro de uma elite ainda mais pequena... Se quiser partir alguma coisa envie por correio para: partemtudo@netcabo.pt

quarta-feira, novembro 21, 2007

Manifestos de Palanque #1 - "É como se faz lá fora."

Eis senão quando, quando menos se esperava, é satisfeita a esperança de muitos [mais ou menos 8 pessoas]... É inaugurada uma nova rubrica. É sempre bonito inaugurar uma rubrica. Para já porque a palavra "rubrica" é do mais espectacular. Depois, e não só, mas também, porque ninguém sabe bem o que é uma rubrica. Mas passava agora a explicar o intuito da corrente e mais-recente rubrica. Trata-se só de passar, de mão-beijada (mais uma expressão que...enfim...) para o mundo, numa atitude de clara não-inveja, certas expressões/situações de linguística que prevêm, lado-a-lado com documentos como a F.O.L.H.A., ornamentar/embelezar/aparvalhar a maneira como se fala. Para evitar mais perguntas e pôr fim à chuva de e-mails [2...] que nos "inundou" só com este parágrafo, passo a enunciar a característica de esta rubrica. Contrariamente à F.O.L.H.A., cujo objectivo se prende apenas com o abrilhantamento daquilo que se diz, tornando muito mais agradável qualquer momento de interlocução entre dois indivíduos, a idéia presente num Manifesto de Palanque pode, "com jeitinho", ir mais além de isso. Tem inclusivamente a capacidade de transformar, sob determinadas e raras situações, a experiência das relações humanas numa experiência insuportável (mesmo quando bem ou mal entendida...no entanto pode ser insuportavelmente positivo ou insuportavelmente negativo...num e noutro caso respectivamente). O objectivo de um conceito expresso em Manifesto de Palanque pretende não só tornar mais difícil a compreensão do sujeito que a emprega pelo sujeito que a escuta mas também, quando as condições o permitem criar uma amizade de infância instantânea entre esses dois seres-humanos. Um quasi-código só que ao mesmo tempo anti-código. Compreendo no entanto que tudo, como sempre, fica mais fácil, com exemplos, pelo que passaria a dar um. Que dá pelo nome de manifesto número um. [que giro. rimou...]

Tive a certeza, ao lê-lo, que o conceito inerente ao título do anterior "post" não poderia ficar por mais tempo guardado apenas entre as pessoas que se dão ao luxo de o utilizar "de propósito"... Falo, sim, da inigualável expressão "como se faz lá fora", quiçá a única expressão digna de ser a número um deste quasi-código, apenas para quasimodos. Evidentemente, a sua origem é não apenas desconhecida como é até, inclusivamente, inrastreável. Pelo que não vou perder mais tempo com esta história da origem. Mas se for a ver bem...gostava mesmo muito de saber quem foi/conhecer o primeiro indivíduo que, sem ter ouvido tal expressão em parte alguma e tomando conhecimento de determinada situação, esta lhe mereceu nada mais nada menos que a seguinte exclamação: "É como se faz lá fora!" [...] Já para não falar que também teria sido bastante agradável ver as caras das pessoas que a ouviram no local... Mas prossigamos...
Não lhe chegaria porventura ser de origem desconhecida, esta expressão gere-se ainda por um sentido dúbio absolutamente único entre suas pares. Analisemos semanticamente:

"como se faz" - até aqui tudo bem, uma clara de comparação de atitudes/modus operandum, uma simples e directa comparação entre esta situação e uma outra. [...] Se bem que pode ser muito parvo incluir num comentário sobre determinada situação, muito menos numa boa, que é o acontece na maior parte dos casos, uma comparação com algo que já se conhece/viu, na medida em que retira à partida todo e qualquer possível carácter de unicidade à situação... Portanto a conclusão a que chegamos sobre esta primeira metade da sentença é que, ainda a "procissão vai no adro" e já está a ser estúpido. Perfeito.

"lá fora" - se já estava mal...pior ficou. [e ninguém esperava que tivesse melhorado. ainda bem. não melhorou mesmo. =] "lá fora"?! Mas como assim? "Lá fora", aonde exactamente? Na rua? Na garagem? No jardim em frente à casa das pessoas? Mas o que haverá de tão melhor no muro do vizinho que não há ali...? Fica aqui a idéia que a expressão pretende adjudicar um carácter redutor inequívoco à comparação. Mas será que é "lá fora"="no estrangeiro"? Ah...lusitana pátria a quanto obrigas. Este eterno sentimento de menor dimensão relativamente àquilo que vemos/apreendemos quando nos deslocamos a outros países e continentes. Então neste caso, fica-nos a garantia [dúvidas houvesse...] de a expressão se revestir de um carácter implicita e explicitamente português. Se calhar o ilutstre leitor já ouviu mas...não me parece que haja um senhor em Sevilha a esta hora a exclamar: "Eh mira!!! Eso es como se hace la fuera!!! Marabilloso!!" Do mesmo modo, fico com sinceras dúvidas que algum dia tenha uma menina de 17 anos, residente em Toulouse, dito algo como: "Mon dieu! Mais c'est pas possible! Ça c'est comme on fait dehors!!! Magnifique!". Podia mesmo alongar-me relativamente a este tipo de exemplos, mas temo que as conclusões seriam as mesmas e que manteria convicta a certeza que nunca existiu nenhuma pessoa em Brighton com a lucidez de comentar algo da seguinte forma: "I can't believe it! That's how they do it outside!". Não sei bem explicitar o porquê...mas a verdade é que não soa bem.

Existe uma outra variante da expressão que pode/deve ser utilizada caso a utilização de esta primeira comece a ceder com o tempo."Ah! É como se vê lá fora!".
As conclusões tiradas anteriormente adaptam-se sem grandes dificuldades a esta última. Com o acréscimo de ser ainda mais redutor pois sempre ouvi dizer que "ver é com os olhos, menino Nélson!". É mais numa senda assim a modos que mesmo superior: "Ah é como se vê, nem sequer se pode tocar..."

Portanto daqui em diante agradecia que toda e qualquer situação fosse pelos queridos leitores arrematada/comentada com a expressão "É como se faz lá fora".

Ainda alguns exemplos [dentro do exemplo que é este número um...]:

Pessoa A: "Ei olha lá a categoria da lata nova da superbock, ó Pedro Paulo!"
O Leitor: "É como se faz lá fora... Lá fora só se vê latas vermelhas."

Pessoa B: "Eia Júlio, trem de cozinha novo?! Sim senhor!"
O Leitor: "É como se faz lá fora. Lá fora só usam aço temperado."

Pessoa C: "Ui que chove tanto! Já viste, Mário Augusto?"
O Leitor: "É como se vê lá fora. Lá fora nunca chove menos que 10 cm por milimetro cúbico. Dizem eles que se é para chover menos que isso, preferem não chover."


Veredicto final:
Potencial de utilização - 10/10 [quantidade de situações em que se pode utilizar]
Primeiro impacto - 9/10 [quantidade de gargalhada expelida por uma pessoa que se debate pela primeira vez com a expressão, empregue fora da situação normal.]
Durabilidade - 8/10 [é possível aplicar mais de 600 vezes e continuar a ter piada?]

Serviço público 120%...como se faz lá fora.

Sem comentários: