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domingo, outubro 17, 2004

Kenny G: O porquê do clarinetista cabeludo de ar contente.

Kenny G tem 23 discos editados. O primeiro, de 1982 (G Force), dá o pontapé de saída na prolífera carreira de um homem que há 22 anos bufa xarope para dentro do seu persistente clarinete. 22 desses 23 discos são colectâneas. Têm nomes tão variados como “The Ultimate Kenny G”, “Greatest hits”, “The best of”, etc. É muito disco e muito tempo, para uma música aparentemente desprovida de aplicação prática. É que, numa primeira leitura, Kenny G não serve mesmo para nada.
A sobrevivência da sua música é o maior mistério da Pop desde a incursão do Bob Dylan na música cristã.
Toda a música, por mais inapropriada que pareça, serve sempre algum contexto. A fase electrónica do Miles Davis, à partida escusada, veste muito bem as teimosas flutuações do Dow Jones e do Nasdaq nos programas de bolsa da cnn. “Pan Pipe Bee Gees”, ou todas as demais recriações em Pan Pipe, antes do fatal caixote do lixo, encaixam como uma luva nos aviões antes da descolagem. O Herbie Hancock, na sua fase mais desleixada, encontra moradia perfeita na listagem dos cinemas nas salas do antigamente na rubrica “fora de casa” da rtp 2, onde se podem acompanhar as exibições do charlô e do lumiére. E o Kenny G? Onde achar lugar para o clarinetista cabeludo de ar contente? Não há estação de rádio, grémio ou certame, rubrica televisiva, périplo ou corte-de-fita, cocktail ou mesa-redonda que acolha o seu melaço sonoro.
Aqui há atrasado descobri... É nas falhas de emissão. É nos “retomaremos a emissão assim que nos for possível”. É no degelo da montanha, na bucólica cascata e no telúrico pôr-do-sol que assomam aos nossos ecrãs assim que um programa dá o berro. É aí que o Kenny G enche os pulmões e nos adoça a alma com o seu mel feito melodia.
Não sei se já alguém reparou, mas eu já. Não há concertos do Kenny G. Nunca neste planeta se viu um cartaz “kenny g live”. O clarinetista cabeludo de ar contente parte em digressão mundial, sim senhor, mas não é para tocar. Parece que estou a ver a cena: Ele com ar maroto, infliltrado na "regie" de alguma estação televisiva, o manager a vigiar ao fundo do corredor, “rápido, vem aí alguém!”, o clarinetista a arrancar os cabos, os dois a dar à sola, prontos para actuar noutra paragem, satisfeitos por terem salvaguardado mais uma audição pública da sua omnipresente obra.

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