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segunda-feira, setembro 06, 2004

Exaurindo Todo o Manancial da Nossa Língua

Cedendo a vários apelos, aqui publico alguns excertos da F.O.L.H.A., sem desprimor para ninguém. (F.O.L.H.A.: Fonemas de Ornamentar a Lingua se Habilmente Aplicados). O documento original da folha é um lençol de trabalho em Excell, ordenado alfabéticamente, com 227 palavras e expressões, cuja actualização é constante e decorrente da observação empírica. A F.O.L.H.A., esta pretensiosa sigla, pretende compilar todas as expressões que o nosso neo-burguesismo dominante utiliza para referenciar conceitos que, pela sua adstringência inerente, carecem de adoçante. São eufemismo que a menina atrás do balcão, o vendedor de Beltrónica ou a costureira das nossas tias-avós aplicam na sua verborreia quotidiana. Na classe dos substantivos de 1ª categoria (que é como quem diz logo ali à superfície) encontramos os seguintes exemplos: esposa, sanita, medicamento, funeral, idoso, jovem, móvel, calçado, duche, rosto, parente, paladar, etc. São terminologias que, na boca da nossa explicadora de português, têm um delicioso trago a fruta cristalizada. Na classe das expressões, é usual ouvirmos um "bom apetite" antes do repasto, um "com licença" ao desligar o telefone, um "prazer" ao ser apresentado, um"santinho" pós-espirro, um "disponha" ao ser concedido um favor, um "perdão" que se segue a um escarro pela janela do carro, etc. Sempre tornam a nossa vida uma travessia mais civilizada. Nos verbos, desfilam como grandes clássicos o "adoecer", "falecer", "recordar", "sarar", "conduzir", etc. E por fim temos a nata da FOLHA, que são os maravilhosos conceitos de "ir a banhos", "estar a ficar sem tabaco", "estar a descansar" (em vez de "estar a dormir"), "estar para o estrangeiro", "o meu mais novo", "fazer praia", "fazer a higiene", "a bebé", "ir à medica", "à meia hora", "amigo pessoal", "jovem casal", "parte da tarde", "parte da manhã", "desfazer a barba", "refeição agradável", "festa de aniversário", "à beira", "pessoa amiga", "vizinha espanha", "qualidade de vida", "casal amigo", "maço de tabaco", e tantas outras. São requintes de boca que as secretárias dos Senhores Engenheiros usam em frases como: "O Senhor Engenheiro não se encontra, está para o estrangeiro em trabalho. Tente contactar na sexta-feira, mas só da parte da tarde. Da parte da manhã o senhor engenheiro vai ficar a descansar, já que na quinta-feira é o aniversário da esposa. Perdão?...Ah, concerteza, eu transmito. Com licença."
E assim, exaurindo todo o manancial desta generosa e anciã lingua, podemos dotar o nosso vocabulário de uma leveza lunar. Com este guia, as palavras saem das nossas bocas a cheirar a mentol. Agora vou-me. Tenho que fazer o restart da máquina. Com licença.

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