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terça-feira, maio 04, 2004

Mitos Urbanos - the definite guide

Sim sim. Hoje acordei e pensei na extrema necessidade de debater algumas excreções (in)fundamentadamente oníricas mancomunadas a entidades cosmopolitas. Ou seja, os MITOS URBANOS. Não, minto. Não foi hoje, nem tão pouco acordei para o assunto. É algo que me esteve sempre preso no coração, como uma espinha mal deglutida. Mas, como uma feijoada mal digerida, algum dia havia de sair. Foi hoje, agora. E então decidi desmistificar neste leve ensaio alguns dos mitos urbanos que me ocorreram. Certamente que esta plateia se lembrará de milhentos mais, eles são tantos como as gotas do mar, tantos como os ventos do ar. Agradecem-se então as adições à lista com que vou começar.

1. Tampas de esgoto. Ahhhh pois é, quem diria que são um mito urbano. Quem diria!! Neste momento o leitor deve estar a perguntar-se qual o motivo de tamanha alucinação. Aqueles mais perspicazes olharão para as horas, e essêncialmente para o dia. Aqueles que não foram assim tão perspicazes, ou que sendo não extraíram qualquer resolução, deixem estar. É assim a vida. Bom, continuemos. As tampas de esgoto... Já alguém se perguntou porque todas as tampas de esgoto são redondas? Certamente que sim, ou então não. É meeeesmo chato, são TODAS redondas. E porquê?? Qual será o mistério, existirá uma causa, uma razão de ser? Sim, eu sei porquê. Mas gostava que reflectissem sobre isso uns momentos, e tentassem descobrir porquê. E que que tentem até se vos esgotarem todas as hipóteses ridiculas como "é mais barato assim", "é o standart" (é STANDARD que se diz!!) ou mesmo "é porque os canos são redondos"... (...) ... Nesta altura já terão desistido, ou simplesmente ignorado os meus humildes apelos à reflexão pública. Então aqui vai: são redondas porque o circulo é a única forma geométrica de raio constante. Qualquer outra forma, quando rodada sobre pelo menos um ângulo, produz uma nova diagonal diferente da primeira. Ora alinhando a peça na posição de menor diagonal sobre aquela que tem maior, e colocando-a na vertical, então ela cairia pelo esgoto, esborrachando qualquer pobre diabo que lá estivesse trabalhando, ou no mínimo deixando-o a esvair-se em sangue. Por exemplo, se fossem quadradas, então poderiamos levantar a tampa na vertical, roda-la de 45 graus para qualquer lado, e enfia-la pelo cano abaixo. Ohhh yeahh, nada como cultura matemática! É claro que só são necessárias tais tampas para entradas com perigo de queda.

2. Núvens. Pois é, é um mito urbano ouvir sempre alguém murmurar "olha parece um elefante", "parece um barco", "parece uma cara", "parece o camandro" quando vêm muitas nuvens juntas no céu. Digo-vos já e agora: As núvens são parecidas única e exclusivamente consigo mesmas. E mai nada. É um mito urbano falso-positivo. Fica o aviso: da próxima que alguém me disser alguma destas, ha-de ouvi-las...

3. Sunday Discos. Mais que um mero lugar-comum de stand-up comedies, as discotecas de domingo são o orgulho de qualquer mito urbano. Toda a gente tem opinião sobre o assunto, mas poucos são fundamentados. Eu fui procurar a resposta.... De facto elas EXISTEM. Sim senhor, pode sair-se ao domingo, e há quem o faça. Certamente de palito na boca e com o sapatinho de missa, mas o bar-discoteca "D'ela" não brinca em serviço com os seus clientes. Até porque o consumo obrigatório de 7,5 euros é rebaixado a 5 euros quando o cliente canta no karaoke. Ohh yeah baby. E a entrada dá acesso ao famoso tramoço e aos cobiçados minuíns solenemente colocados sobre o altar de cevada fermentada esmaltada. Não escrevo mais porque alguns leitores podem ser clientes ou - !!!!horror!!!! - ter o cartão dourado da casa. É verdadeiramente chocante. Brutal.

4. Frase míticas. Chegou a vez de uma expressão que me irrita a até superfície capilar do reflexeu só de ouvir murmurar. Não sei como transmiti-la, mas tentarei... até porque "tens lido isto mais cedo, e ias entender".. PRONTO já disse. Aquele "Tens"+"lido" é horroso, um vómito. É o culminar de uma educação excelente do português, este conjugar do presente do indicativo com o adjectivo em forma passada, este gerundiante da estupidez perene.. E é péssimo ouvi-la dizer no autocarro, na rua, em qualquer lugar da urbe. Aquele "Ó mariza, tens chegado mais rápido e iamos ao nórtexópingue. Aiiiiii ainda consigo ouvi-la na minha cabeça... Será que esta gente não se ENXERGA??????? Enfim, o mito é desfeito com um aviso: ISTO NÃO SE USA.

5. Casa de banho de senhoras. Sim, é um MITO URBANO que estas são limpas. Eu estava deveras curioso se seria verdade que até se pode comer (e pode :D) num quarto de banho de senhoras, mas foi de novo um falso-positivo, e ao entrar ilegalmente numa delas descobri a verdade. Não são limpas, pelo menos não mais que as dos homens. Eu bem pensava que a ausência de urinóis seria um beneficio, mas não. Parece que afinal aqueles bidões rasos (por maiores que sejam está sempre tudo por fora) até não são mal jogados. Nas mulheres está definida a liberdade prementemente moderna: "podes aliviar-te aonde quiseres, desde que seja uma sanita"... pelo vistos não funciona. Talvez por serem demasiado cuidadosas. Na ânsia de não repousar nos poi(s)os alheios, estas vão sucessivamente alcochoando os receptáculos de papel, que resulta na vândalização dos habitáculos com restos, quando não provocam a raiva do autoclismo ciclónico. Foi entrar e sair...

6. A onda verde. Pois, um dos maiores Mitos Urbano ficou para o fim. A onda verde, segundo a qual qualquer veículo que numa estrada circule a velocidade constante segue sem encontrar vermelhos, é a maior mentira da actualidade. Se existem [em lusitanas estradas] troços em que se possa verificar uma continuidade de circulação, esta não passa de um mero acaso, uma solução fortuita de um emaranhado de variáveis que são o Planeamento Urbano - na sua maior projecção como o actual PLANO PORMENOR. Creio que devia ser modado para algo que reflectisse o verdadeiro esforço que nele é submetido e aplicado.. proponho a saneação do "plano pormenor" a PLANO POR MENOR.. é assim mesmo.

7. Táxis no Porto. É um mito dizer-se que há taxis a mais... Mas será que é verdade? O facto é muitas vezes estamos numa paragem de autocarro a secar à 2 hora e no entremente passam 4 ou 5 taxis vazios.. Eu quis tirar tudo a pratos limpos, e então foi perguntar. Aproveitei uma corrida às Antas. (...) Eram 4 da tarde. O senhorio da carroça estava nos seus dias, até porque o meu destino ficava a caminho da boavista onde ele tinha de ir. E ele recebia os telefonemas à dúzia, porventura ameaças de morte conjugais sobre juramentos de compromissos temporais, ou sei-lá-eu... Quando me decido a olhar para ele, reparo que o pobre beduíno dos quilómetros alheios está a suar em bica (em bica? ¿de onde veio esta frase ?), gotas de inconveniência escorrem-lhe pela fronte. E decido quebrar o silêncio comercial COM gelo.. Perguntei-lhe, assim como-quem-pergunta-se-o-porto-vai-bem-ou-não, quantos táxis tem o Porto. Ele olhou-me, arregalando-me as órbitas da razão com o seu estrabismo vocal, e disse: 789. Sim, foi assim tão frio. Num segundo, todo o mistério estava acabado. Tal como este comentário..

8. "O" fóminhas. De volta às personalidades. Este hominideos famintus, na sua mais frenética representação, reside no porto, e bem perto de vários membros desta comunidade. Usualmente deambula o seu corpo pedinte pela junção boavista-gomes da costa, mas já foi visto um pouco por todo o lado. Salafrário das calçadas negras, este caçador de esmolas é usualmente identificado por um porte pouco ameaçador, com os ombros a debruçarem-se sobre o nosso fraco coração, e com os braços sobre o estômago. Não podendo desviar por pelo menos uma vez o olhar desta pessoa, logo reparamos em toda uma composição orgânica vocacionada para o amolecimento da nossa vontade. Desde o cinto-corda, até à barba 5-dias-e-não-mais.. Enfim, creio que o consultor de imagem dele é 10x melhor que o do PR, senão mesmo do famigerado George W. S. M. P. U. V. Bush Jr.

9. O "animal". Pois é cambada, mais vale acabar de vez com estes Deuses. O nome que se segue é dado ao emplastro encarnado homem, que subiu à terra para a todos nos animar. Esta pústula humana tem o condão de atrair a si elementos multimédia, como sejam jornais, televisão e camarãs privadas. Mas ele não se fica por aqui, não senhor. Este carbúnculo vivo é tema de conversa de vários grupos e associativismos humanos, e já foi proposto a capa da Time 2 vezes. Mais do que eu, vos digo. E foi assim que a pouco e pouco ele foi conquistando a atenção de todos nós Portistas e portugueses, até se tornar o furúnculo maior.. Que ele tem acesso a todos os jogos do Glorioso é um dado adquirido. Mas fala-se em maçonaria, e em estar envolvido num plano conjunto com o D. Duarte para fazer voltar Portugal à monarquia.. este tipo é mesmo polivalente. Proponho-o para a Grande Cruz da Ordem de Malta.

10. Município dos Porcos. Para último ficou a transfiguração do famoso Triunfo dos Porcos para o nosso cosmos.. Não estou a falar do tuga enquanto ser que escarra a tudo o quanto é poiso público, não senhor. Mas sim da tendência para aporcalhar em situações públicas. Não digo nada de novo. É certo e sabido que o lusitano apenas preza acima do que é seu o que é dos outros. É como 1+1. Qualquer um de vós já terá lido crónicas urbanas sobre os assaltos aos brindes, sobre a vândalização de ofertas, ou mesmo sobre o coleccionismo cleptomaníaco de pechisbeques de segunda. São sempre belas Ilíadas Comuns, mas nunca captam o desespero de causa de um verdadeiro falso-português. Mas eu vou particularizar numa só erupção de massas. A chamada Inauguração em Serralves. Isto sim, é O mito urbano. Jamais viu Roma no auje da sua Vandalização por hordas Bárbaras tamanha vulcanização da Cultura. E mesmo desta vou apenas contar-vos o expoente deste magnete público, o Átila. Úno. Foi no dia 25 de Abril de 2004. Não só celebravamos a Evolução de 74 (reh reh reh reh) como também a vitória nacional do Porto. E celebravamos ainda a inauguração de mais uma exposição no Parque de Serralves. Eu à parte, claro, pois sou fascista e benfiquista, e odeio manifestações públicas com frquentes exibicionismos das classes maiores. Ahahahah. Estava uma bela noite, entrei era apenas lusco-fusco. 5-7 minutos, já sabem. Então, e como sempre, a bebida era à descrição. Era chegar ao bar e pedir, delicadamente: "Olhe, eram 4 uísqís-cóla, dois com gelo e dois sem". Francamente. Isto só para uma pessoa claro. E eles vieram ao milhar. Falavam alto e rudemente, eram feios e olhavam de lado qualquer erudito quer da arte quer do álcool, como um insultuoso olhar que recebi, onde li "o quê? só levas um vodka? (era lisboeta ou gay, à certa) és meeeesmo burro". Que besta. Não fosse a sua cara metade, igualmente dandesca, estar presente e aquele urso teria hibernado nessa noite sem dentes... enfim (suspiro). Continuando. O tempo passava, e cada vez entrava mais gente. Até que baco se ressentiu e deixou de haver alcool. Então foi o ataque às águas. Eram às 6 duma vez, para serem atiradas ao ar ou despejadas sobre as mãos. Vergonhoso. Foi então que o milagre aconteceu. Uma camioneta da Super-Bock estaciona à porta e começa a distribuir cerveja grátis, minutos depois devidadmente acondicionada por detrás de uma barraquinha. Mais uma vez era ver esses desavergonhados a encher bolsos de latas, até o cós das calças não aguentar mais, até pelas suas contas ser um litro de alcool etílico. E, mal isto acabou, houve o evacuar, apenas ficando alguns núcleos resistentes à espera de mais uma refrega, um outro encore give-away. Como se a esperança fosse a última coisa a morrer. Aiai, para onde caminhamos.. Não vaticino nada de bom daqui. Até porque até os guardas das chaimites estacionadas à porta do dito Museu estavam já a emburcar umas latitas, desviadas à força da baioneta. O verdadeiro Mito Urbano. E com um grogue a ser, sonhavam já no próximo levantamento público, um novo insurgimento de classes. Seja ele como 74 ou como o do presente dia. No fim de contas são ambos borgas contadas. É caso para dizer que só os porcos triunfam.

E é assim que me despeço de vós meus caros..
Hoje joga o glorioso...
Até os comemos!

Porfiai desmesuradamente
Bebei e descultivai-vos
Este ensaio foi co-assinado pelo heterónimo Franky Four Fingers..

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