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quinta-feira, abril 22, 2004

Miguel Bombarda

Sábado passado fui tentado a ir com mais três amigos a um conjunto de inaugurações de exposições de arte na rua Miguel Bombarda. Confesso que estava até bastante apreensivo quanto áquilo pois nunca fui muito de exposições e sinceramente só alinhei porque não tinha nada que fazer durante a tarde. E assim partimos para lá.

Estacionamos o carro mesmo em frente à primeira exposição, esta numa casa antiga de três andares. No andar de baixo uma colecção inigualável de discos de autores que sinceramente nunca ouvi falar (pelo menos 95% deles), embora a música que tocasse fosse fantástica. Subindo um andar, mais discos e cds, já mais do conhecimento do comum dos mortais. Já existiam bastantes pessoas por aí. No 2º andar, numa sala vazia uma exposição de quadros (se é que se pode chamar quadros...). Pedaços de cartão pintados com desenhos simples, uns com mais interesse que outros, naturalmente. Por aquela altura comecei a sentir-me o verdadeiro peixe fora de água. Perguntas como “o que é que estás a fazer aqui?” passavam-me pela cabeça. Mas adiante. Pode ser que o último andar me revele coisas mais interessantes. E de facto eram! Duas salas, uma com artigos de decoração de casa que sinceramente mal vi, e outra era uma mini-sala dedicada a fotografia e câmeras de filmar. Não topos de gama, não convencionais, mas mais viradas para fotografia artistica, em três dimensões, dividida em quatro e outros. Teve alguma piada ver aquilo. Quando nos aprestavamos para abandonar a sala, a rapariga que lá estava a tomar conta convida-nos para beber um shot de vodka que lá estava para ser oferecida aos visitantes. Ainda trocamos olhares um pouco tímidos mas decidimos negligenciar a ressaca provocada pela noite anterior e ir em frente. Três shots lá foram em copos de plástico. Um dos meus amigos, já algo afectado por tudo o que tinha visto na casa pergunta à rapariga, antes de atirar o copo vazio para o caixote do lixo que estava ao canto da sala: “Isto é mesmo o lixo ou é uma obra de arte?”, ao que ela responde com uma gargalhada. Acho que não é preciso dizer mais nada...

Passamos para a galeria seguinte, esta já com um aspecto de galeria no sentido tradicional. Infelizmente para a mesma, era pequena e não tinha nada que interessasse. Daí termos gasto não mais de dois minutos por lá. Nessa altura, a pessoa que nos atraiu para ver a exposição tinha que se ir embora. Ficamos três fantásticos resistentes, que nem nos seus sonhos mais loucos pensariam passar uma tarde de sábado assim, no meio da rua, prestes a entrar para outra galeria.

E a partir daqui começa a festa. Uma galeria já maiorzinha, com videos, slides, fotografias e pinturas. Acima de tudo maradelas. Até que lá no fundo da galeria há um jardim interior, onde estavam um conjunto de três pessoas que devem fazer destas visitas a exposições o seu hobbie de fim de semana, tal o à vontade que demonstravam. Estavam sentados a uma mesa saboreando um vinho que lá estava para quem lá passasse. Curiosamente passamos lá nós! E mais que uma vez, por sinal. Após uns copos comento com eles os dois: “O que é que um gajo faz para beber uns copos... até aprecia arte!”. Arte assim é que nós gostamos! Saimos dessa galeria mas fizemos juras de lá voltar, tal a hospitalidade demonstrada!

A seguir passamos por mais três galerias sem interesse absolutamente nenhum, pois eram mínimas e acima de tudo não tinham o néctar que nos atrairia a permanecer lá mais algum tempo.

E com isto estamos a chegar nós ao fim da rua quando damos com uma galeria bem maior que as outras que tinhamos visto até então. Os meus dois amigos foram entrando enquanto eu estava na porta a ver quantas galerias faltavam ver ainda na rua, num mapa que lá estava afixado. Enquanto procuro onde estou ouço um berro vindo lá de dentro: “Podes vir, esta tem whisky!”. Ora bem... lá teve que ser. Sinceramente nesta galeria não vi nada digno de interesse a não ser o tal whisky, razão pela qual nos mantivemos por ali mais que cinco minutos. De copo na mão, lá andamos pelo meio da exposição fingindo ser os mais entendidos do mundo em arte, pelo menos enquanto o copo estivesse cheio. Curiosamente os tais profissionais de apreciação de arte de fim de semana que encontramos na mesa da outra galeria também cá estavam. E imagine-se a fazer o quê... Se calhar não é assim tão difícil fazer o que eles fazem, pensei eu. Se calhar não é...

Por fim, entramos na última galeria da rua. Uma galeria pequena mas com quadros já interessantes a óleo sobre tela (com uns copos em cima qualquer leigo já entende de arte a pacotes). Ainda disfarçamos a olhar para os quadros mas verificamos que os nossos amigos das duas galerias anteriores também se encontravam nesta última, e faziam um apertado cerco a uma mesa lá ao fundo. Não admirava! A mesa continha não só whisky, como vinho, martini, aperitivos, enfim... tudo o que era necessário para sermos felizes nessa altura. Claro que a permanência nessa galeria foi um pouco mais longa devido à variedade existente (não de obras de arte, entenda-se), e também porque era a última, já não havia mais nada de novo para ver.

Pouco depois iniciavamos a viagem de regresso para o carro. Acontece que depois de tanto tempo a provar aqui e ali surgiu uma vontade de ir à casa de banho. Eis que então entramos num café para lá irmos fazer as nossas necessidades. O café tinha um balcão à esquerda e lá ao fundo a maioria das mesas. Só que as mesas não estavam arrumadas como se de um dia normal se tratasse. Essa parte do café estava tomada por um conjunto de jovens que se reuniam formando um grupo de discussão, organizando as messas mais ou menos num círculo. Ia eu passar lá pelo meio para ir à casa de banho quando ao meu lado um homem mais velho, com ar de ser o mentor daquela gente toda recita uma frase filosófica que está a ler num livro e provoca a discussão entre os presentes. Uma rapariga lá ao fundo responde rapidamente, libertanto a alma enquanto respondia. O mentor sorria como que se vangloriando de pôr estes jovens a pensar. Era isso mesmo. Estavamos num café de intervenção. Num “café de Abril” com toda a certeza! Para não atrapalharmos, e acima de tudo para não nos partirmos a rir das figuras deles ali mesmo, abandonamos o café, não sem antes baptizarmos o mentor daquela tertúlia como o “Sócrates de Miguel Bombarda”.

Eis que estamos de volta ao carro, não sem antes termos parado noutro café para fazer o que tinhamos que fazer e beber mais um fino cada um. Mas, conforme disse, o carro estava estacionado em frente à primeira exposição que visitamos. E essa tinha shots de vodka. Somando 1 + 1 decidimos subir até ao último andar uma última vez! A rapariga, ao ver-nos, exclama “Conseguiram subir as escadas?” seguida de uma gargalhada. Claro que não nos contivemos e rimo-nos também. E pronto, lá bebemos o shot para a viagem de regresso a casa, concluindo da melhor forma uma tarde de exposições de arte. Fiquei fã, arte assim vale a pena. Recomendo a todos. Há novas exposições por ali todos os meses, é uma questão de estar atento.

Saudações artísticas

sábado, abril 03, 2004

Ficar aí

Hoje proponho uma reflexão sobre uma frase que é ordinariamente proferida por muita gente: o ficar aí. Dou, a título de exemplo, a frase "ele acabou de jantar imenso e foi dar um mergulho para a piscina, quase que ficava aí". Mas qual é o mal desta gente? Ficar aí? Ficar um cadáver a boiar na piscina? Os mortos já não se enterram? Tipo... morreu... ficou aí? Nem sei mais o que escrever sobre isto. Fica a reflexão.