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domingo, março 28, 2004

Redescobrindo o jogo da sueca

Mudou a hora. Finalmente chega-se ao tão ansiado horário de Verão. Os dias são mais longos, o tempo aquece, as pessoas começam a surgir com mais frequência pelas ruas. Reformados, muitos reformados. Em casal, grupo ou isoladamente, não importa. Proliferam.

Foi-me hoje relembrado algo que já me andava esquecido e que começa a acontecer por esta altura do ano com mais frequência. Ainda não está quente o suficiente para as pessoas começarem a ir para a praia, mas são estes grupos de reformados que de facto declaram aberta a época balnear! Grupos de pessoas, geralmente homens, juntam-se aos quartetos para dar início à “suecada” de domingo à tarde. Mas estes jogos de sueca são ligeiramente diferentes dum jogo de cartas banal, com quatro pessoas, uma mesa e um baralho. São jogos de uma carga emotiva fora do comum.

Os intervenientes do jogo sentam-se geralmente em volta de uma mesa de esplanada usando pedras para impedir que o vento leve as cartas. Fala-se alto na mesa, dissecando-se cada jogada ao momento. À volta da mesa numerosa assistência permanece absorvida nas incidências do jogo. Fala-se “suequês”, língua parecida com o português mas que substitui os números 2, 3, 4, 5, 6 e 7 por duque, terno, quadra, quina, sena e manilha respectivamente. Os ânimos aquecem. Numa das mesas uma discussão é terminada com “Oh Fonseca! Mandaba-te fudiãre e num era pelo correio!”. Sim, porque os intervenientes no jogo tratam-se uns aos outros pelo apelido apenas. Marques, Fonseca, Silva e outros que tais. No caso de ser uma jogadora já será a Dona Deolinda ou coisa parecida.

Cada jogador tem os seus truques, com base em muitos anos de experiência no jogo. Pormenores como o jogar a carta com desleixo ou bate-la na mesa com força indicando ao parceiro a acção a fazer (do tipo trunfar ou deixar passar). Se o parceiro não entender o que um gesto quis dizer, aí é o cabo dos trabalhos. Muitas das discussões começam mesmo aí. Claro que eu acho que não existe um código universal de gestos relacionados com o jogo da sueca logo perceber-se o que o parceiro quer sempre pode ser bem complicado. Mas é disto que esta gente gosta. Sentar, jogar, discutir, exaltar. Não interessa quem tem razão.

Ao lado das mesas de jogo estão as mulheres dos jogadores. Sentadas na areia ou mesmo nas rochas, sempre em cima de uma toalha de praia. Mas permanecem vestidas. Até bastante agasalhadas. Mas só o prazer de acompanhar o marido até ao seu local de culto domingueiro e poderem ficar em grupo a comparar quem terá a vida mais desgraçadinha vale o sacrifício.

A assistência a estes jogos é sempre grande. No conjunto das pessoas que estão por ali, sem dúvida que a grande maioria está a assistir simplesmente. Uns assistindo mesmo, outros aprendendo, outros ainda só estão lá para conversar. Mas acima de tudo é bastante gente. Geralmente respeitam quem está a jogar, não mandando bocas nem palpites. Mas às vezes acontece e há quem leve a mal. Interrogações como “Estás a ensinar a quem como se joga?” ou no caso mais imperativo “Quem está fora racha lenha!” são ouvidas com alguma frequência sempre que a relação jogador - assistente se detriora.

E com isto se passa mais um domingo que será igual a tantos outros daqui para a frente e durante este ano. Sempre assim foi, sempre assim será. Um bem haja.

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